Animação com pênis e vagina dançantes, produzida para TV sueca, levanta dúvidas sobre como abordar o sexo com crianças
Com música alegre e traço infantil, o clipe é protagonizado por genitais masculinos e femininos dançantes e sorridentes: os pênis com chapéu e bigode, as vaginas de tope e longos cílios. Depois de bailar pela tela, os personagens, batizados com apelidos comuns na infância, como "pinto" e "pepeca", são colocados sobre as figuras estilizadas de dois corpos humanos, o de um homem e o de uma mulher, sinalizando à audiência a quem pertence cada um dos órgãos.
Previsto para ir ao ar no mês que vem no Barnkanalen, programa educativo destinado a crianças entre três e seis anos, o vídeo divulgado na internet há poucos dias provocou estrondo na Suécia. Na página do canal SVT no Facebook, pais e mães enfurecidos com o conteúdo duelaram com outros tantos que saudaram a iniciativa da emissora. O vídeo de pouco mais de um minuto já foi sido assistido quase quatro milhões de vezes.
Confira o vídeo sueco que provocou polêmica
O momento de falar sobre sexo, entre outros temas delicados e complexos, costuma provocar ansiedade crescente nos pais à medida em que os filhos vão se desenvolvendo: meninos e meninas descobrem a própria anatomia, percebem as diferenças nos amigos, têm curiosidades sobre o corpo dos pais, querem saber de que maneira nasceram. De acordo com a psicóloga Lina Wainberg, terapeuta de casal e família, a criança sinalizará quando estiver pronta para assimilar informações desse tipo. O despertar para questões sexuais costuma ocorrer em duas fases: por volta dos quatro anos e, depois de arrefecer, retorna aos oito ou nove.
— Os pais devem responder conforme a demanda. Geralmente, as crianças ficam satisfeitas com respostas curtas. Não é preciso dar uma aula de mestrado para cada pergunta. Se a criança não ficar satisfeita com a resposta, provavelmente fará outras perguntas — explica Lina.
É importante, segundo a mestre em Sexologia, adaptar a linguagem e o conteúdo à faixa etária, mas sempre dizendo a verdade.
— A história da cegonha é problemática. Deve-se tentar ser o mais realista possível. "De onde vêm os bebês?" "Da barriga da mamãe." Se a criança quiser saber por onde eles saem, "pela barriga ou pela xexeca" — exemplifica a terapeuta, salientando que o vocabulário a ser utilizado deve ser aquele com que todos se sintam à vontade.
Celso Gutfreind, psicanalista da infância e escritor, afirma que não se deve censurar nenhum tópico, seja sexo ou qualquer outro. Desde cedo, a criança elabora questionamentos sobre origem da vida, violência, morte. Uma situação corriqueira da rotina familiar, como o pai que manuseia chaves para abrir as muitas fechaduras antes de entrar na casa protegida por um sistema de alarme, já serve de exemplo para abordar a insegurança das cidades, por exemplo.
— O ideal é estar disponível para conversar. A indagação vai aparecer, é inevitável. O pai pode falar por que está tomando todos esses cuidados, sugerir o tema, mas não sair inundando-a de explicações . Não há assuntos proibidos para uma criança pequena, apesar de a nossa cultura preconizar que sim, mas é preciso respeitar o momento e o desejo da criança de querer falar sobre o tema — adverte Gutfreind.
A pedido de Zero Hora, especialistas assistiram ao vídeo produzido pelo canal sueco para avaliar a adequação do conteúdo ao público almejado. Apesar de considerar o material bem feito, não pornográfico, a psicóloga Aidê Knijnik Wainberg levou um susto.
— Estou apavorada. Não conheço a realidade das crianças na Suécia, mas a grande questão é a seguinte: a serviço de que está esse vídeo? Para que serve esse vídeo para uma criança? Nessa fase, ela ainda não está desperta para essas coisas. É uma antecipação da questão da sexualidade que não é adequada. Pode antecipar coisas em que ela não está pensando porque não está pronta. É dar uma resposta sem ter a pergunta — critica Aidê.
Para a psicóloga, o clipe estaria adequado se fosse apresentado a alunos que estudam o aparelho reprodutor na escola, por exemplo.
— Estaria em outro contexto: na sala de aula, para pré-adolescentes ou adolescentes. Aí seria uma coisa adequada. Para a minha neta de quatro anos, que significado tem? Nenhum — opina.
Para o psicanalista Celso Gutfreind, autor de livros para o público infantil, o material apresenta aspectos positivos e negativos. É adequada a disposição do programa de falar sobre sexo e corpo humano com crianças pequenas. A inadequação estaria no formato em que o conteúdo foi apresentado.
— Talvez seja uma abordagem artística e culturalmente pobre porque usa pouco da metáfora, é muito direta. Os contos infantis tradicionais são maravilhosos porque são mais indiretos, como quando o Lobo ataca a Vovó e a Chapeuzinho Vermelho. A criança precisa falar desse assunto, mas uma metáfora faz bem para ela — avalia o escritor.
COMO LIDAR COM A CURIOSIDADE INFANTIL
— Responda às perguntas numa linguagem adequada à faixa etária de cada criança.
— Dê explicações curtas e objetivas, sem extrapolar o tema do que foi questionado. Se ela permanecer em dúvida, insistirá no assunto.
— Se tiver dificuldade para falar de sexo, uma boa opção é recorrer aos livros. Há bons títulos falando de relações sexuais, gravidez, menstruação e polução noturna, entre outros temas que provocam curiosidade.
— Nem todo pai e toda mãe se sentem à vontade para discorrer sobre intimidades. Caso a tarefa lhe pareça difícil demais, peça auxílio para alguém com quem a criança tenha uma boa relação e em quem confie, como um tio ou primo. O que não se pode fazer é negligenciar o assunto.
O QUE ASSISTIR NA TV
— Assista aos programas de TV preferidos de seu filho na companhia dele. Reflita: o conteúdo é adequado? Como você se sente diante do enredo e dos personagens?
— Discuta o conteúdo do programa. Muitas vezes, é possível fazer paralelos entre a ficção e a vida real. A criança se sentirá feliz por perceber o interesse do adulto em algo que é importante para ela.
— Se tiver filhos de idades diferentes, tenha cuidado redobrado: os programas de TV assistidos pelos mais velhos podem não ser adequados aos mais jovens.
— Fique atento às características de cada emissora. Há uma profusão de títulos de desenhos animados nos canais a cabo, mas é preciso verificar a faixa etária a que se destinam. Há opções para crianças de todas as idades, adolescentes e até adultos. Disney Junior e Discovery Kids, por exemplo, são para crianças bem pequenas, destacando valores como solidariedade, cuidado ao próximo, vida em família, trabalho e esforço.
— Caillou, do Discovery Kids, é um menino muito esperto e enfrenta situações com as quais o telespectador vai se identificar, como os medos da infância e a rivalidade fraterna. Peppa Pig, no mesmo canal, aborda o cotidiano de uma família. Já o Cartoon Network apresenta um conteúdo para outro tipo de público, com elementos como o politicamente incorreto e a maldade. No Brasil, o canal já chegou a censurar trechos de Apenas um Show que exibiam cenas de nudez e violência.
ENTREVISTA: Guto Bozzetti, diretor de animação
"Não espero que a TV ensine minhas filhas"
Sócio da Cartunaria Desenhos, o diretor de animação gaúcho Guto Bozzetti, 38 anos, é pai de duas meninas, de três e sete anos. Como pai e profissional do ramo, ele compara a produção de desenhos animados atual com a de outros tempos.
O que você acha das atrações dos canais infantis atualmente?
O conteúdo e a forma de abordar determinados assuntos são bem mais cuidados. Antigamente não existia esse monte de canais. Hoje é bem segmentado, com conteúdos melhores e mais ricos. Não se pensava muito no conteúdo exibido, não tinha o policiamento de quem assistia. O feedback dos canais não era como o de hoje. Eles demoravam a descobrir o que ofendia, o que não ofendia. Hoje, os pais podem mandar e-mail, falar nas redes sociais. As coisas repercutem muito rápido. O que está errado ou chama a atenção rapidamente vira tópico na internet. As emissoras têm muito cuidado para botar as coisas no ar.
Esse excesso de regras e policiamento não é prejudicial às produções?
Às vezes, deixa o conteúdo engessado demais. Os pais esperam que o conteúdo tenha determinado valor, e o canal acaba se colocando na função de educador da criança, o que é um erro. Alguns conteúdos acabam sendo didáticos em demasia. Não espero que o canal ensine para minhas filhas o que é certo ou errado. Os pais e a escola vão ensinar. Os canais têm de se preocupar primeiro com o entretenimento.
E os desenhos de antigamente?
Pica-pau e Pernalonga não tinham nenhuma preocupação com o politicamente correto. O Pica-pau bebia álcool, os olhos saltavam, ele cuspia fogo pela boca e saía voando, pegava a arma de fogo e atirava no urubu. Nesse meio-tempo, passava uma gatinha supersexy chamando a atenção dele. O desenho tinha sexo, violência e drogas, e nem por isso usei drogas, arma de fogo ou virei pervertido. Mas hoje, com o alcance que a televisão tem, é preciso ter cuidado com o conteúdo porque nem toda criança vai entender como eu entendi. Se uma só criança não entender direito, num universo de bilhões, já pode ser um problema.
Que temas você destaca na programação de hoje?
Na Peppa, já percebi questões de inclusão social aparecendo com naturalidade — setores desfavorecidos da sociedade, crianças com algum tipo de deficiência ou diferentes. Percebo que, quando isso aparece, as meninas nos perguntam ou comentam algo que viram na escola. Aí a gente comenta, explica, fazemos um paralelo com o que elas vivem.


0 comentários :
Postar um comentário